William Dorsey Swann: conheça a primeira drag queen dos EUA

No século XXI, as drag queens conquistaram milhões de fãs e se integraram à cultura pop além do público LGBTQIA+ — artistas como Pabllo Vittar, Gloria Groove, RuPaul e as participantes de seu programa. Mas, no passado, a situação era bem diferente: a primeira drag queen dos EUA foi, na verdade, um ex-escravo chamado William Dorsey Swann.

Mesmo com uma história tão sofrida, Swann lutou pelos direitos LGBTQIA+ — bem antes desse termo sequer existir — e organizou os primeiros bailes drag do país, na capital Washington, nas últimas décadas do século XIX. A história de Swann é pouco conhecida atualmente, mas foi ele quem abriu as portas para tantos outros artistas e ativistas que vieram nas décadas seguintes. 

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Os primeiros bailes drag dos EUA

Imagem: Reprodução(Fonte: Reprodução)

Os bailes drag são uma parte essencial da cultura gay. Em resumo, são eventos fechados em que pessoas queer se fantasiam para criar uma ilusão — masculina ou feminina. Nesses eventos, os artistas dançam, desfilam e fazem performances para “vender” a ilusão, competindo em diferentes categorias por prêmios. 

Durante muito tempo, os bailes drag — ou simplesmente balls, em inglês — eram a única forma da comunidade LGBTQIA+ se reunir, já que qualquer demonstração de sua cultura era proibida. O próprio William Dorsey Swann chegou a ser preso por organizar esses eventos, mais de um século antes da popularização das drag queens.

De ex-escravo a “rainha” do drag

A primeira drag queen dos Estados Unidos nasceu William Henry Younker, em uma fazenda do estado de Maryland, no ano de 1858. Na época, a escravidão ainda era regra em grande parte do país e a família Younker era propriedade de senhores brancos. 

Tanto ele, quanto seus pais e seus 12 irmãos, viveram assim até que a Guerra Civil acabasse e a escravidão fosse abolida na década seguinte. Depois disso, a família conseguiu comprar as próprias terras na região e William se mudou para a capital, Washington, em busca de salários mais altos. Lá, trabalhou como garçon, além de aprender a ler e escrever.

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No trabalho, William conheceu outros jovens negros que viviam “no armário” da sexualidade, assim como ele. Daí surgiu a motivação para organizar festas em que todos pudessem viver como realmente quisessem. Os bailes drag eram imitações das festas da elite sulista — e era evidente que os frequentadores se empenhavam para imitar mulheres. Os homens usavam espartilhos, meias longas, vestidos de seda ou cetim com mangas bufantes, entre outros itens.

O termo drag surge nessa época, com algumas origens possíveis. Ele pode ser derivado de “grand rag”, o nome das festas da elite que os bailes tentavam imitar. Mas também pode ser uma sigla para dressed resembling a girl — vestido como uma garota, em tradução livre. Foi nos bailes que organizava que William Dorsey Swann se intitulou como a primeira “rainha do drag” ou, em resumo, drag queen.

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O primeiro ativista LGBTQIA+ dos EUA

(Fonte: Shutterstock)(Fonte: Shutterstock)

Além de ser a primeira “rainha do drag”, Swann também se tornou a primeira pessoa que lutou pelo direito de ser uma pessoa LGBTQIA+. Isso porque, conforme seus bailes ficaram maiores, ele começou a sofrer perseguições constantes. 

Os registros mostram que ele foi preso pela primeira em setembro de 1882. A acusação era de roubar porcelanas, pratarias e outros artigos de festa. Cinco anos depois, passou outro período na prisão por ser uma “pessoa suspeita”. Foi a partir daí que o comportamento de Swann e seu grupo chamou a atenção da mídia e da sociedade. 

Os textos da época se referiam ao grupo como “uma organização de erotopatas negros”, “um grupo lascivo de pervertidos sexuais”, “um bando de pretos com características andróginas” e outros termos altamente ofensivos. Enquanto isso, a perseguição legal continuava. 

Em 1896, ele foi preso por “manter uma casa desordeira”. Isso era um eufemismo para chefiar um bordel — algo que os bailes de Swann definitivamente não eram. Sendo assim, ele decidiu pedir o perdão presidencial a Grover Cleveland, chefe do executivo dos EUA na época. Esse pedido não foi atendido, mas marcou a história como a primeira vez que uma pessoa LGBTQ pleiteou seus direitos na justiça. 

Na virada do século XX, Swann se recolheu no interior do país. Ele morreu em 1925 e sua casa foi destruída pelas autoridades — acabando com a maioria das evidências sobre sua trajetória. Apenas em anos recentes que livros e artigos na internet, como este, resolveram resgatar essa fascinante história.

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