Técnicas agrícolas que podem diminuir o uso de fertilizantes

A guerra na Ucrânia iniciada pela invasão da Rússia reduziu a oferta de fertilizantes para a agricultura brasileira e gerou uma cascata de crises financeiras mundo afora. Agora, um grupo de pesquisadores levanta a hipótese de que, com algumas técnicas agrícolas, seria possível reduzir, substituir ou até eliminar o uso de adubos químicos nas lavouras do país.

Alguns dos métodos sugeridos já são aplicados no país há séculos, enquanto outros estão em fase de expansão, sendo apresentados a pessoas e grupos integrantes do agronegócio, cuja redução de custo e diversificação da produção sejam objetivos. Porém, o Brasil tem outros problemas a serem resolvidos, fruto do uso excessivo de fertilizantes.

Dependência e esgotamento: o uso excessivo de fertilizantes

(Fonte: Pexels)(Fonte: Pexels)

O conflito na Ucrânia tem afetado o valor dos alimentos e, também, de outros setores. Soja, milho, cana-de-açúcar e algodão, maior parte da produção vegetal no país, respondem por 90% dos fertilizantes consumidos. Desse montante, 23% são adubos químicos oriundos da Rússia.

Com o início da guerra, o governo Putin suspendeu as exportações após as sanções internacionais que lhe foram impostas. Esse movimento jogou o preço dos produtos para valores muito altos. Para tentar contornar, o governo brasileiro criou um projeto de reduzir o uso de fertilizantes importados no país em até 30 anos.

A iniciativa foi criticada por órgão nacionais de agroecologia, que afirmam que o problema da produção no país é mais complexo. O primeiro deles é que o adubo utilizado no país é nitrogenado, produzido a partir de combustíveis fósseis, um recurso natural não renovável.

O segundo problema apontado por organizações é que o uso excessivo empobrece o solo, diminuindo a presença de microorganismos responsáveis por reciclar a matéria orgânica. Há como solucionar?

As lições que ensina a agricultura familiar

(Fonte: Pexels)(Fonte: Pexels)

A agricultura familiar, cujo cultivo da terra e direção dos negócios é realizado por pequenos proprietários rurais em que a mão de obra utilizada nas atividades econômicas é da própria família, é de extrema importância para o país. Mais de 20% dos alimentos produzidos no Brasil têm origem em propriedades familiares, de acordo com dados do Censo Agropecuário 2018.

É dela que algumas práticas de cultivo podem contribuir para diminuição da dependência por fertilizantes. O faxinal, praticado em propriedades no Paraná, é um sistema em que animais são criados em meio à floresta de araucárias, onde se alimenta de pinhão e frutos nativos. Já a caruca, praticada na Bahia, a mata é raleada para cultivo de cacau em meio a outras árvores, em condições próximas ao ambiente original da espécie.

Em comum, essas técnicas se aproveitam da diversidade e abundância de biomassa vegetal para conferir ao solo a fertilidade necessária ao sistema produtivo. Ainda que eficientes, elas são pouco reconhecidas pela agronomia tradicional, como afirma o engenheiro agrônomo Walter Steenbock, doutor em recursos genéticos vegetais.

Especialistas defendem transição gradual

(Fonte: Pexels)(Fonte: Pexels)

Em entrevista à BBC, integrantes da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) afirmaram que não é viável para o agronegócio abrir mão do uso de fertilizantes químicos, ao menos não em curto prazo. Na mesma reportagem, a agrônoma Irene Maria Cardoso defendeu que é possível suavizar a aplicação dos adubos químicos, para realizar uma transição para outro modelo agrícola.

Há consenso entre especialistas que essa transição gradual é a melhor saída, já que oferece uma abordagem mais plausível e de menor impacto em termos de custo. No livro A Arte de Guardar o Sol – Padrões da Natureza na reconexão entre florestas, cultivos e gentes, o agrônomo Walter Steenbock lista várias práticas simples que poderiam ser úteis.

Entretanto, na mesma obra, o Steenbock evidencia como os grandes homens do agronegócio têm resistência com a aplicação de novas técnicas agrícolas, que é ainda maior com as usadas em pequenas comunidades rurais e indígenas brasileiras, consideradas por eles como atrasadas. A luta, pelo visto, é longa.

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