Seca de quase 75% da água do Pantanal indica escassez do bioma

O mapeamento realizado pelo especialista Tasso Azevedo, coordenador do MapBiomas, revelou que o Pantanal já perdeu quase 75% de seu volume de água desde 1988, quando a última cheia no bioma foi registrada. Segundo o projeto, o déficit hídrico deverá ser agravado nos próximos anos e poderá ocasionar o surgimento de novos desastres naturais, atuando como vetor de incêndios e como responsável por uma possível extinção da cobertura vegetal até 2092.

Os dados surpreendentes, identificados por meio de mais de 150 mil imagens geradas por satélites Landsat e auxiliadas por inteligência artificial, apontaram que o Pantanal perdeu aproximadamente 68% de seu território, contra 15% da caatinga, 13% da Amazônia, 4,6% da Mata Atlântica e 0,4% do pampa. Esse total sugere uma redução de 5,9 milhões de hectares para apenas 1,5 milhões, as menores dimensões catalogadas nos últimos 36 anos.

(Fonte: SOS Pantanal / Reprodução)(Fonte: SOS Pantanal / Reprodução)

O agravamento dos períodos de seca e os impactos das mudanças climáticas trabalharam ao lado da ação humana para danificar as terras do bioma. Nas áreas de planalto e planícies, houve aumento nos casos de pastagens degradadas, escassez de florestas protetoras de nascentes e rios, construção de hidrelétricas e estações de drenagem, e maior deposição de sedimentos que reduzem a vazão da água, resultando em mais incêndios.

Estima-se que 57% do território do Pantanal foi queimado ao menos uma vez desde 1985, números equivalentes a 86.403 km² de extensão. Ao todo, 93% desse fogo ocorreu em vegetação nativa, contra apenas 7% relatado em área antrópica, ou seja, áreas de pastagens e agriculturas que incrementaram as regiões de cultivo em mais de 250% entre 1985 e 2020, com destaque para o uso agropecuário na Bacia do Alto Paraguai.

(Fonte: ECOA / Reprodução)(Fonte: ECOA / Reprodução)

“Antes a gente tinha muito receio de falar isso, mas eu não tenho mais dúvida. O desmatamento na Amazônia está reduzindo a quantidade de água na própria Amazônia e no Centro-Sul”, garante Tasso Azevedo. “Estamos em uma trajetória em que não há nenhum elemento para voltarmos ao que era antes. As condições estão dadas para perdermos mais água. É possível que estejamos criando as condições para acabar com o recurso.”

Reflexos da crise climática

Um relatório do Painel Intergovernamental de Mudança do Clima (IPCC) informou que a crise climática surge como maior impulsionador nas alterações no Pantanal e no Brasil. Seus dados apontam a ocorrência de chuvas concentradas em um curto período, expandindo os períodos de seca e favorecendo a permanência de gases estufa. 

Essa questão, aliada ao desmatamento na Amazônia e a diminuição do efeito de absorção das florestas, estaria permitindo o uso de recursos hídricos limitados em detrimento da expansão da fronteira agrícola. Dessa forma, tratar as práticas de exploração no país e conscientizar sobre a importância da proteção dos mananciais é a forma mais eficiente de frear os problemas, mesmo com os índices desfavoráveis e sugestivos a uma provável escassez do bioma.

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