Pesquisadores tentam evitar a extinção dos odores do mundo

O olfato certamente é um dos sentidos que mais estimulam a memória. O cheiro de um lugar, de um perfume, comida ou produto pode te levar para diversos momentos em sua vida. Como mostra uma matéria do The Harvard Gazette, os cheiros estão ligados à emoção e à memória de maneira intrínseca, visto que passam pelo sistema límbico do nosso cérebro, responsável pelas respostas comportamentais.

Você provavelmente também já testemunhou um cheiro simplesmente “morrer”, quando um local favorito de infância fechou ou quando aquele cheiro do moletom de alguém que você gostava tanto sumiu no momento em que ela deixou de existir.

Já se perguntou como um cheiro simplesmente morre? Será que se extingue para sempre ou só não o encontramos mais?

Recolhendo parte do tempo

(Fonte: Shutterstock)(Fonte: Shutterstock)

É isso que a ciência quer saber, ou melhor, quer fazer. Cientistas têm tentado reviver cheiros que entraram em “extinção”, por assim dizer. A pesquisadora Cecilia Bembibre, do Instituto de Patrimônio Sustentável da UCL, têm feito experimentos com o cheiro dos livros porque acredita que a fragrância deles carregam um imenso valor patrimonial cultural.

Bembibre entrou em uma jornada para tentar resgatar os odores do passado que já foram considerados extintos, e também preservar para o futuro os que estão ao nosso redor hoje.

“Eu queria abordar uma questão que tem sido pouco pesquisada — que tem a ver com os cheiros como herança olfativa da humanidade”, disse a pesquisadora em entrevista à BBC. Ela ressalta que o engajamento que o governo faz para a preservação dos patrimônios culturais sempre tem a ver com a parte visual, nunca com a estimulação dos sentidos.

Cecilia Bembibre. (Fonte: CNN/Reprodução)Cecilia Bembibre. (Fonte: CNN/Reprodução)

Mas como fazer isso? Segundo Bembibre, um dos métodos envolve a exposição de uma fibra de polímero ao odor para que os compostos químicos causadores do cheiro no ar possam grudar nela. Em seguida, é analisado a amostra em laboratório, dissolvendo os compostos presos à fibra, separando-os e os identificando. 

A outra maneira de extração do cheiro é através da separação e identificação dos compostos diretamente das amostras de gás — um método muito comum na indústria de perfumes, alimentos e bebidas, pois permite a identificação de compostos ativos de odor volátil. 

A importância de um cheiro

(Fonte: Michael Bause/Sensory Cities)(Fonte: Michael Bause/Sensory Cities)

Recorrer a “narizes especialistas”, como o de perfumistas ou designers de aromas, também é uma alternativa importante. “Caracterizamos o cheiro do ponto de vista humano, e isso é importante porque, se queremos preservá-lo para o futuro, depende de muitos fatores. Não apenas a composição química, mas também a nossa experiência”, acrescenta Bembibre.

Apesar de a Unesco ter adotado uma convenção desde 2003 para proteger o patrimônio cultural imaterial, que inclui práticas sociais, tradições orais e artes cênicas, os aromas não figuraram a lista.

Só o Japão classificou os 100 lugares mais cheirosos do país, que incluíam odores naturais e culturais, por ordem do ministro do Meio Ambiente para reconhecer a importância histórica dos odores da nação. Em 2016, o Centro de Pesquisa para Civilizações da Anatólia, na Universidade Koç, em Istambul, abriu a exposição “Scents and the City” para explorar 4 mil anos de História através dos cheiros.

(Fonte: American Chemical Society/Reprodução)(Fonte: American Chemical Society/Reprodução)

Segundo Alex Rhys-Taylor, da Goldsmiths University, especialista na experiência multissensorial do espaço urbano, embora possa levar algum tempo para criar um arquivo de cheiros reconhecido, inclusive pela Unesco, o processo final deve considerar a diversidade de classes sociais e evitar preservar apenas os aromas de espaços privilegiados.

“Me preocuparia se estivéssemos apenas curando ou coletando os aromas de um setor social específico”, disse ele. Rhys-Taylor ressalta que o cheiro de um pub com fumaça, homens, cerveja derramada no chão e desinfetante saindo dos banheiros também faz parte de uma coleção muito importante para história social de Londres, por exemplo.

Para o especialista, estes cheiros representam mais verdadeiramente um lugar ou cultura do que qualquer outro.

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