Pesquisa mostra como a pandemia afetou a saúde dos criadores de conteúdo

A pandemia do coronavírus, declarada pela OMS em março de 2020, fez com que o mundo inteiro voltasse sua atenção para a saúde – não só para diminuir o risco de contágio, mas também para mitigar os efeitos do isolamento na nossa saúde mental.

Ficar em quarentena e fazer de casa o espaço de trabalho foi uma realidade exaustiva, causando, em alguns, um impacto tão grande que foi necessário buscar ajuda psicológica. Os criadores de conteúdo foram um dos grupos mais afetados neste cenário.

Por isso, vamos iniciar aqui uma série de matérias especiais com o intuito de apresentar uma ampla pesquisa feita entre os meses de janeiro e junho de 2021 por nós com apoio do Google, que busca desenhar o perfil do grupo. É um esforço, com a participação de especialistas de variadas áreas, para dar a vocês uma radiografia dos trabalhadores digitais, uma profissão que se estabelece como uma das mais características deste novo século. 

Para começar, falaremos do impacto da pandemia na saúde mental

Dos 428 profissionais entrevistados, 53% relatam alguma questão de saúde. Desta porcentagem, 33% lidam com transtorno psíquico, 22% têm restrição alimentar, 15% enfrentam doenças crônicas e 3% são PCD’s.  Pesquisa do Ministério da Saúde, realizada entre abril e maio de 2020, já apontava que a pandemia trazia impactos à saúde mental dos brasileiros: cerca de 87% relataram ansiedade. O número reflete também quase a mesma incidência entre criadores de conteúdo: 80% dos casos de transtorno psíquico são de ansiedade. Outros 33% afirmam ter depressão.

Como a experiência de isolamento e medo de ser vítima da covid-19 contribuiu para esse quadro?

A psicóloga Sabrina Hatwig, 25 anos, tem lidado com essa questão desde março do ano passado, quando a pandemia alcançou o Brasil. Em sua prática clínica, ela atende pacientes com uma gama de sintomas que podem ser sintetizados como próprios desses tempos. 

O que mais apareceu foi a desmotivação, a desesperança e a ansiedade. Usei muito uma metáfora nos últimos meses que é: se me colocarem numa sala branca sem ninguém e estímulo algum, provavelmente dentro de algum tempo ficarei com sintomas de depressão. A felicidade é um conceito amplo, mas o que escolhemos para compor nossa vida é o que cria a sensação de bem-estar. Na pandemia perdemos muito a perspectiva de podermos fazer coisas básicas como interagir com quem gostamos, conhecer novos lugares e consumirmos novidades na vida real

A própria Sabrina se viu enredada em questões práticas sobre a atuação: quando a pandemia teve início, ela recém havia montado um consultório novo, um espaço para acolher os pacientes que, ainda não sabia, iriam todos migrar para a tela do computador. Trabalhando de casa, Sabrina atende uma influenciadora digital que vamos chamar de Gabriela (alteramos o nome para preservar a identidade. A publicação da história foi autorizada por ela). Ela

Tem 19 anos e é minha paciente desde os 17. Aos 15 começou a ganhar seguidores e compartilhar sua rotina, aos 18 entrou na universidade e, na pandemia, teve que conciliar estudos EAD, trabalho como influenciadora e um grande dilema: o transtorno obsessivo compulsivo (TOC), que consumia seus dias e a afastava da vida feliz que antes compartilhava

Cerca de 6% dos influenciadores digitais relatou sofrer com o TOC

Ver a vida inteira transposta para as telas, e ainda pensar em conteúdos que possam ser consumidos pelos fãs, trouxe momentos de angústia a Gabriela. O dilema entre compartilhar apenas as partes felizes da rotina ou também os sentimentos ruins que experimentava esteve presente no processo. 

Aos poucos vem aumentando o discurso de mostrar a vida real, mas sabemos que o estar bem todo tempo ainda é muito glamourizado. Gabriela sempre teve um funcionamento mais ansioso, não chegava a fechar critérios para um diagnóstico, mas na pandemia pensamentos obsessivos se tornaram recorrentes e ela se percebeu mostrando uma vida diferente das crises de choro e angústia que era a realidade por trás do celular 

Sabrina Hatwig

O caminho proposto pela psicóloga foi incentivar uma conversa honesta com os seguidores, expondo as fragilidades do seu processo e trazendo para o debate o tema dos sofrimentos psíquicos. 

Fomos trabalhando juntas o compartilhamento dessa fragilidade e a ajudei com conteúdos sobre saúde mental para que enquanto estivesse em tratamento comigo e com a psiquiatra pudesse ir melhorando e dividindo isso, que era uma parte da sua vida real, assim como a felicidade também. Foi e tem sido um processo muito bonito. A aproximou dos seguidores, uma vez que a influência tem a ver com conexão e identificação

Além da experiência com o manejo de saúde mental no consultório, Sabrina também produz conteúdos para o perfil profissional que mantém no Instagram, então sabe bem como é estar do lado de lá da tela. Ela aborda questões sobre psicologia, oferecendo reflexões que entende como pontos de partida para as pessoas se interessarem pelo tratamento psicoterapêutico.

Ela diz que sempre gostou de redes sociais e avaliou que seria interessante mostrar como trabalhava. Os vídeos sobre terapia trouxeram novos pacientes que, em alguns casos, tinham receio de marcar uma sessão. A profissional ratifica também a importância de criar um ambiente confortável e acolhedor para quem chega e conclui que as novas gerações veem bastante valor na psicoterapia.

A importância da atividade física

Além do tratamento com a psicóloga e da avaliação com um médico psiquiatra, quando necessário, uma aliada no combate à ansiedade e à depressão é a prática regular de atividade física. Dos 428 criadores de conteúdo entrevistados pela pesquisa, 76% dizem praticar exercícios

Há uma relação bem clara entre a prática de atividades físicas e saúde mental. O esporte promove a síntese de neurotransmissores e hormônios, o mesmo que buscamos com terapia cognitivo-comportamental (TCC) e farmacologia. Cada uma dessas intervenções tem um alcance diferente, mas o somatório de TCC, fármacos e exercício físico é o tratamento com evidência científica mais indicado para casos de transtorno depressivo maior e transtorno de ansiedade generalizada, por exemplo. Casos mais leves se beneficiam do mesmo combo.

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