O incrível hábito medieval esquecido dos ‘dois sonos’

Muitas pessoas gostam de tirar uma soneca no meio do dia… Porém, a maioria de nós costuma dormir tudo que precisa de uma vez só, com várias horas de sono à noite. Pode até acontecer de acordarmos por causa de algum barulho ou para ir ao banheiro — mas, de modo geral, isso dura por pouco tempo e nós voltamos a dormir sem maiores pausas. 

Mas você sabia que esse hábito é relativamente recente? Até o século XIX, o mais comum era dormir duas vezes. O hábito dos “dois sonos”, também chamado de sono bifásico, foi presente na humanidade por milênios, até ser abandonado durante a Revolução Industrial. 

Mas como funcionavam os “dois sonos”?

(Fonte: Getty Images)(Fonte: Getty Images)

O primeiro sono começava depois que anoitecia, ali pelas 21 horas. Depois de duas ou três horas descansando, as pessoas acordavam — naturalmente, sem despertador, algo que só seria inventado no século XVIII. 

Então, elas ficavam acordadas por um período entre duas e três horas, muitas vezes chamado de vigília. Esse tempo era usado para rezar, filosofar, resolver tarefas domésticas… Ou apenas conversar com as pessoas da família. Depois, todos se deitavam novamente para o “sono da manhã”, que durava até o amanhecer. 

Um detalhe importante é que poucas pessoas se deitavam em um quarto, com uma cama e um colchão, como fazemos hoje. As pessoas, literalmente, dormiam onde podiam.

Apenas os ricos tinham colchões recheados de penas de ganso. Quem tinha alguma condição, mas não era da elite, se virava com uma espécie de colchão de palha ou retalhos de tecido. Já a maioria mais humilde deitava sobre forrações de folhas ou no chão de terra batida. 

Nesse contexto, era bastante comum que a família inteira dormisse junta: as filhas de um lado, os pais no meio e os filhos homens do lado da parede. Até visitantes e desconhecidos podiam dormir ali, do lado dos filhos.

Como os “dois sonos” foram esquecidos?

(Fonte: Getty Images)(Fonte: Getty Images)

De acordo com pesquisadores, o hábito dos “dois sonos” foi bastante comum na Antiguidade, durante toda a Idade Média, até o século XIX. Ele foi observado em diversas civilizações — da Europa à África, do sudeste asiático aos índios tupinambás do Brasil, que costumavam comer depois do primeiro sono. Então por que abandonamos o sono bifásico?

Tudo mudou durante a Revolução Industrial, que colocou as pessoas para trabalhar por mais horas por dia, além de nos dar uma iluminação artificial mais eficiente. Isso nos permitiu ficar acordado até mais tarde, mas também alterou nosso ritmo circadiano. 

Além disso, era preciso acordar na mesma hora, no dia seguinte. A consequência é que nosso sono ficou mais concentrado e mais profundo — um sono só, como é atualmente. Esse processo de abandono do sono bifásico se estendeu pelo século XIX. Até que, no século XX, ninguém mais se lembrava que o costume já tinha sido diferente. 

A redescoberta dos dois sonos

Esse curioso processo só foi compreendido há alguns anos, quando o historiador Roger Ekirch resgatou documentos históricos para escrever um livro sobre os hábitos noturnos ao longo dos séculos. Ele descobriu que registros de processos judiciais e investigações eram ótimas fontes sobre os costumes de cada época, por conta dos depoimentos. Lá, Ekirch encontrou um relato que lhe deixou com a pulga atrás da orelha. 

O depoimento de uma menina de nove anos conta que ela e sua mãe haviam acordado do 1º sono da noite, quando alguns homens bateram à porta e ela saiu com eles — para nunca mais voltar. O termo “primeiro sono” aparecia sem destaque, como se fosse normal na época. 

Intrigado, Ekirch aprofundou suas pesquisas e descobriu referências ao “primeiro sono” e ao “segundo sono” em cartas, diários, artigos de jornal, romances e vários outros escritos, desde a Antiguidade até a Idade Moderna. O sono bifásico era um fato histórico. 

Antigamente, a maioria das pessoas não dormia em colchões e camas confortáveis (Imagem: Freepik)(Fonte: Freepik)

Muitos anos depois de sua descoberta histórica, Ekirch leu um artigo sobre uma pesquisa de saúde do sono, realizada nos Estados Unidos. Os participantes foram privados de luz artificial, mantendo seu padrão de sono durante dez dias. Mas adivinha o que aconteceu depois desse período? Todos começaram a acordar no meio da noite, dividindo o sono em duas partes.

Mais do que isso: o sono bifásico ainda é presente em certas comunidades que não possuem luz elétrica e mantém esses padrões de séculos atrás. Isso quer dizer que o sono bifásico é o natural e deveríamos voltar para ele? Não necessariamente… Agora nós temos mais estrutura para uma noite de sono calma e longa. O que importa, de verdade, é acordar descansado.

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