Niède Guidon, a arqueóloga que elevou a pesquisa brasileira

Se você nunca ouviu, leu ou soube algo sobre Niède Guidon, siga neste texto e corrija esse erro. Isso porque a arqueóloga franco-brasileira é um dos mais importantes nomes da ciência brasileira, contribuindo, entre outras coisas, com a criação do Parque Nacional da Serra da Capivara, localizado no estado do Piauí. Lá está o maior conjunto de sítios arqueológicos de todas as Américas.

Filha de pai francês e mãe brasileira, Niède é natural de Jaú, interior de São Paulo. Formada em História Natural pela Universidade de São Paulo (USP), em 1959, aproveitou-se da dupla nacionalidade para curar uma especialização em Arqueologia Pré-Histórica na Universidade Paris-Sorbonne, em 1962. Foram mais de cinco décadas dedicadas à luta pela preservação do parque nacional, até que ela se aposentou, em 2020, aos 87 anos.

Do Museu do Ipiranga para o interior do Piauí

(Fonte: FUMDHAM/360Meridianos)(Fonte: FUMDHAM/360Meridianos)

Na década de 1960, enquanto ainda era funcionária da USP, no Museu do Ipiranga, Niède Guidon ouviu falar pela primeira vez sobre os sítios arqueológicos existentes no interior do Piauí. O contato existiu porque estava organizando uma exposição sobre pinturas rupestres do Brasil.

Após uma conversa informal com uma pessoa, sua curiosidade foi atiçada, ainda que tenha levado sete anos até sua primeira visita ao local. Ela visitou os 55 sítios arqueológicos lá existentes, os fotografou e levou o material coletado para a França, onde residia. Com auxílio do governo francês, retornou à Serra da Capivara. O que era para ser uma pesquisa in loco com duração de dois meses virou 50 anos de luta e dedicação.

A luta por preservar as importantes descobertas

(Fonte: Reprodução/Nossa Ciência)(Fonte: Reprodução/Nossa Ciência)

Na Serra da Capivara, a arqueóloga e sua equipe encontraram inúmeros resquícios de fogueiras e sinais de presença humana datados de milhares de anos. Ao todo, mais de 1.300 registros pré-históricos foram encontrados em 130 mil hectares, e é Guidon a principal responsável por criar o parque que viria a preservar essas descobertas, em 1979.

Sua luta, desde então, é para conseguir manter a entidade civil sem fins lucrativos que criou, em 1986, ao lado de outros pesquisadores, para manter o parque, a Fundação Museu do Homem Americano (FUMDHAM). Com despesas fixas em torno de R$ 150 mil reais, o parque tem dificuldades para gerar receita própria, já que há pouca estrutura nas cidades ao redor.

Esse dinheiro é utilizado, entre outras coisas, para garantir o funcionamento dos acessos aos visitantes, rondas de combate à caça e segurança do museu. Até 2015, a Serra da Capivara ficou sem recursos federais, tendo o quadro de funcionários reduzido de 270 para 30 pessoas. Naquele ano, uma verba emergencial foi destinada pelo Ministério do Meio Ambiente, que cobriria custos fixos por três anos. Sem auxílio governamental, o trabalho de Niède corre risco de fechar.

Niède Guidon também acumulou controvérsias na carreira

(Fonte: FUNDHAM/360Meridianos)(Fonte: FUNDHAM/360Meridianos)

Difícil imaginar algum grande cientista ou pesquisador que não tenha, em sua carreira, acumulado algumas controvérsias, em especial alguém do gabarito de Niède Guidon. Os estudos da arqueóloga reviraram as estruturas do que se pensava sobre a chegada do Homo sapiens às Américas.

A convenção científica internacional aceita que os primeiros seres a habitarem o continente teriam cruzado o estreito de Bering há cerca de 13 mil a 14 mil anos antes do presente (ou AP, forma que a arqueologia, paleontologia e geologia marcam o tempo, tendo como base de referência o ano de 1950 d.C..), vindos da Rússia para os Estados Unidos.

Niède e sua equipe encontraram vestígios de ferramentas e pinturas rupestres com datações de cerca de 59.000 AP a 5.000 AP. O material encontrado pela cientista e sua equipe passou por rigorosas análises em laboratórios de arqueologia na Europa e nos Estados Unidos, e, ainda assim, seguem sem aceitação plena da comunidade acadêmica americana.

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