‘Marrom múmia’: a cor de tinta feita de restos mortais

Antes de serem consideradas patrimônio imaterial da humanidade, as múmias foram tanto compradas e vendidas por ambulantes e membros da elite europeia para serem usadas em festas e confraternizações no século XVIII, como moídas para tratar feridas, tosse e dores articulares.

Durante a Era Vitoriana, compreendida entre 1837 e 1901, as pessoas misturavam o pó da múmia com álcool ou chocolate antes de ser consumido como remédio, e isso acontecia desde o século XII, devido à cor desses restos mortais milenares. Foi assim que o “marrom múmia” surgiu — e se tornou um fenômeno.

A cor feita de gente

(Fonte: R. Leopoldina Torres/Florida State University/Reprodução)(Fonte: R. Leopoldina Torres/Harvard Art Museums)

A tinta, oriunda da mistura dos restos mortais da múmia em pó com mirra e piche branco, se tornou altamente famosa a partir do século XVII entre os pintores. Eles ficaram fascinados pela pigmentação do composto, que dava à tinta uma boa transparência, sendo versátil em vários contextos artísticos.

O problema é que todo esse deslumbramento com o poder e qualidade revolucionárias que a tinta apresentava, acabava no momento em que ela secava na tela. A “cor de múmia” rachava facilmente, secava mal ao sol e desbotava quando atingida pelo vento. Foi por esse motivo que muitos pintores pararam de usá-la.

(Fonte: Messy Nessy Chic/Reprodução)(Fonte: Boston Public Library/Wikimedia Commons)

Da mesma maneira que poucas pessoas sabiam que tintas de parede e algumas maquiagens eram recheadas por compostos tóxicos, como arsênico, os artistas não faziam ideia de que o nome “cor de múmia” não fazia alusão apenas à tonalidade do cadáver adquirida ao longo dos séculos, mas sim que era realmente feita de restos humanos.

Mesmo após isso ser revelado, e muitos pintores desapegarem da tinta devido a fatores técnicos, a produção da cor “marrom múmia” só foi realmente acabar na década de 1960, quando a empresa C Roberson & Co. esgotou seu estoque de múmias.

No final das contas, fora a bizarrice provocada pelo tempo, a existência de uma cor de tinta feita a partir de múmias só faz pensar o quanto esses bens valiosos foram sistematicamente roubados, desviados e destruídos por puro capricho — nada muito diferente do que os ingleses fizeram no século XVIII.

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