Guerra do Contestado: o maior conflito brasileiro do século XX

Há mais de 100 anos, um conflito de caráter sócio-político ocorria entre as fronteiras dos estados do Paraná e de Santa Catarina, na região Sul do Brasil. Era a Guerra do Contestado, combate que aconteceu entre os anos de 1912 e 1916, alcançou grandes proporções na história do nosso país.

O embate envolvia, de um lado, a população cabocla de ambos os estados, enquanto do outro, os governos estaduais que tinham o apoio do presidente da República, Hermes da Fonseca. Mas para você entender direito o que estava envolvido, precisamos voltar ao ano de 1912.

Construção de ferrovia criou cenário para a Guerra do Contestado

Apólice da Brazil Railway Company. (Fonte: Wikimedia Commons)Apólice da Brazil Railway Company. (Fonte: Wikimedia Commons)

Na reta final do século XIX, o governo brasileiro havia autorizado a construção de uma estrada de ferro que faria a ligação entre São Paulo e Rio Grande do Sul. Acontece que, para realizar este projeto, era necessário desapropriar uma extensão territorial de cerca de 30 km de largura na área de fronteira entre os estados do Paraná e de Santa Catarina.

Para tal, foi contratada a empresa norte-americana Brazil Railway Company, do empresário Percival Farquhar. As terras foram, então, desapropriadas para a construção da rodovia, uma porção territorial cujos posseiros foram expulsos. O governo brasileiro havia declarado aquela região como área devoluta, isto é, como se ninguém ocupasse.

Nesse caldeirão ainda existia um número grande de migrantes que foram trazidos para servir como mão de obra e, ao fim do trabalho, ficaram desempregados. E, para piorar, Farquhar, também dono de uma madeireira, havia adquirido parte daquele território desapropriado, com permissão brasileira para extrair madeira da faixa de terra. Isso levou os pequenos fazendeiros que atuavam no setor à ruína e, bem, acho que está bem claro que o caldo azedou.

Do messianismo à guerra

Tropas do Exército brasileiro (Fonte: Claro Jansson/Acervo Dorothy Jansson Moretti)Tropas do Exército brasileiro (Fonte: Claro Jansson/Acervo Dorothy Jansson Moretti)

Semelhante a outros conflitos no Brasil, o messianismo deu o tempero final para o início da Guerra do Contestado. Um monge chamado José Maria foi recebido pelos habitantes da região como a ressurreição de um antigo líder espiritual e passou a interferir nas questões políticas da população por meio de sua fama.

O monge liderou os camponeses e os antigos trabalhadores da empresa construtora da ferrovia, fazendo-os se unirem aos posseiros prejudicados na questão madeireira. Esse grupo declarou a região como um governo independente, o que causou um grande incômodo no governo federal, em especial nos coronéis locais, incomodados pelo poder do monge, e também pela Igreja, que condenava o messianismo.

O governo federal, então, lançou uma intensa ofensiva contra o grupo liderado por José Maria. Depois de dois anos sem muito sucesso, o Exército brasileiro e as polícias locais obtiveram sucessivas vitórias, completando a vitória com a prisão do último líder dos revoltosos, Deodato Manuel Ramos.

Acordo selou o fim oficial do conflito

Assinatura do acordo de fim da guerra. (Fonte: Autor desconhecido)Assinatura do acordo de fim da guerra. (Fonte: Autor desconhecido)

Com um saldo de mais de 5 mil caboclos mortos, foram quase 46 meses de conflito, tornando a Guerra do Contestado o conflito de maior duração e número de mortes da história brasileira. Apesar da derrota dos sertanejos, a Guerra do Contestado é considerada a precursora das lutas por terra no Brasil.

Com o fim dos embates, o conflito ainda precisava ser finalizado oficialmente. A Guerra do Contestado custo muito dinheiro aos cofres públicos, algo próximo a 3 mil contos de réis. Para firmar um acordo que firmasse o fim da guerra, o presidente Venceslau Brás, junto dos governadores de Santa Catarina e Paraná, assinaram um acordo de limites, que deu fim ao litígio territorial.

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