Epigenética: é possível acabar com todas as suas doenças?

No último domingo, durante sua participação no Hora do Faro, programa dominical da Record, a ex-BBB Maíra Cardi — que atua como coach nutricional e se define como “empresária do emagrecimento” — afirmou que, antes de engravidar, fez uma modulação epigenética. De acordo com seu relato, esse procedimento seria uma mudança na alimentação feita pelos futuros pais antes da gestação, de modo a “zerar a genética de doenças”.

A fala de Maíra causou grande repercussão e uma discussão acalorada nas redes sociais sobre o que seria este tratamento e se haveria alguma lógica científica no que foi dito. Para elucidar a questão, vamos explicar o que é epigenética.

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O que é epigenética?

(Fonte: iStock)(Fonte: iStock)

Nosso material genético, o DNA, contém todas as informações sobre nosso organismo. Parte dele, os genes, podem com o tempo deixar de ser necessários, conforme explicou ao UOL a geneticista Michele Migliavacca, doutora em Ciências pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). “Se tenho um gene cuja função é formar os braços, só vou precisar dele na fase embrionária. Depois, ele poderá ser desligado”, afirmou.

De acordo com a geneticista, raciocínio semelhante pode ser aplicado a um gene que não seja importante em determinada área do corpo. Isso significaria que ele também seria desligado no órgão em que não possui utilidade e ligado no espaço do corpo em que é fundamental.

E é a esse ato de “ligar e desligar” genes que se dá o nome de epigenética. Seria como o interruptor de uma lâmpada. Em um funcionamento correto do nosso corpo, esse ato é executado por uma molécula chamada metil que, ao se ligar a um gene, torna-o metilado — ou seja, faz com que atue. Pela lógica, quando um gene não está metilado, ele não possui nenhuma função.

Mas é possível “zerar” a genética?

(Fonte: Medical News Today)(Fonte: Medical News Today)

Não. Não é possível “zerar seus genes”. Aliás, é importante frisar que não existe nenhum tratamento de epigenética. O que há, e talvez isso permita esse tipo de confusão, são fatores externos que podem influenciar a metilação, como radiação, exercício físico e dieta.

Essas interferências externas podem influenciar a produção de proteínas nas células. Os padrões epigenéticos, isto é, a correta indicação corporal do que deve “ser ligado e o que deve ser desligado”, variam de indivíduo para indivíduo, nos diferentes tecidos do corpo e mesmo nas células. Condições como câncer, distúrbios metabólicos e degenerativos estão relacionados a erros epigenéticos, ou seja, problemas nesse processo de metilação que podem levar a uma atividade anormal do gene ou mesmo à sua inatividade.

Porém, a ciência ainda não conseguiu definir como a epigenética acontece, até porque os exames genéticos não mostram quais genes estão ou não metilados. Por essa razão, é importante que tenhamos em mente, de modo básico, como funciona a genética.

(Fonte: Shutterstock)(Fonte: Shutterstock)

Imagine a dupla fita de DNA, uma delas é herdada da mãe e a outra do pai. Elas permanecem enroladas, enfileirando os cerca de 21 mil genes de um ser humano, cada um deles formados por sequências com diferentes combinações de quatro letras: A, T, C, G — chamadas de bases nitrogenadas.

São elas que carregam todas as informações do nosso organismo, inclusive a probabilidade de que venhamos a desenvolver alguma doença. Todas as células do organismo carregam essa dupla fita com todas as sequências.

Ocorre que, em algumas situações, uma dessas bases pode estar trocada, isto é, onde deveria haver um G temos um A. E essa troca, que chamamos de mutação, já seria o bastante para haver algum problema de origem genética. A mutação ocorre em todos os genes, de todas as fitas duplas de DNA, em todas as células do corpo, inclusive em espermatozóides e óvulos. Desta maneira, não há tratamento, dieta ou reza brava que modifique sua estrutura genética.

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