Como não deixar a fama subir à cabeça?

A partir da minha experiência como PhD em Neurociência, mestre em Psicologia, biólogo e assessor de personalidades, explico os efeitos colaterais da fama e dou dicas de como não deixá-la subir à cabeça

A psicanálise freudiana foi precursora de muitos estudos do comportamento humano — id, ego e superego são amplamente abordados por pesquisadores, e essas facetas da personalidade humana podem influenciar tanto a relação pessoal, como interpessoal, assim como apontam pesquisas. Com isto, discorro sobre como a fama influencia características das personalidades humanas, como a imersão nesse mundo pode ser prejudicial nas relações, e como evitar que isso suba à cabeça.

O que é fama?

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O dicionário Michaelis define a fama como opinião pública, que pode ser boa ou má, sobre uma pessoa, um grupo, ou mesmo um objeto qualquer, atrelada à reputação que um indivíduo ou algo constrói em torno de si. Cientificamente, explico que a fama tem relação com o sistema de recompensa no cérebro, processo iniciado no córtex pré-frontal ventromedial que atua na liberação de neuro-hormônios como a dopamina, também responsável pela sensação de bem-estar.

Conforme a fama se desenvolve, pode revelar um lado egocêntrico e também desencadeia transtornos, como o transtorno de personalidade narcisista, a depender do precursor genético que também tem relação com a inteligência e o desenvolvimento da região frontal do cérebro.

A característica do id na psique humana é de ser totalmente inconsciente e governar os desejos orgânicos, como a busca pelo prazer e as pulsões primitivas. Baseado na inteligência e nos precursores genéticos do indivíduo, detalho que o ego e o narcisismo, este relacionado ao instinto reprodutivo humano, podem surgir mediante à fama repentina ou ao sucesso que, como diz popularmente, “sobe à cabeça”. As pessoas com ego inflado tendem a ter o cérebro acelerado e apresentam problemas cognitivos.

Narcisismo ou egocentrismo?

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Mas há diferença entre narcisismo e egocentrismo, e mesmo que ambos possam ser desencadeados pela fama, alerto que o narcisista tem um senso inflado de autoestima, e o egoísta só enxerga a si mesmo. O egocentrismo é uma característica de personalidade que desencadeia diversos transtornos, entre eles o de características dramáticas. Muitas são os traços de um egocêntrico, como, por exemplo, a insegurança, a baixa autoestima, a falta de empatia, a distorção da realidade, exibicionismo e a inabilidade de aceitar críticas.

As características psicológicas destes dois transtornos causados pela fama, podem ou não serem separadas, podendo todas constarem em ambos os desvios de personalidade. A partir disso, as características que estão mais presentes em narcisistas, somadas às do egocêntrico, também trazem ao indivíduo a necessidade de ser admirado, exagero na visualização das próprias conquistas, dependência de afeto. Muitos trocam de parceiro constantemente, têm uma preocupação excessiva com a própria aparência, não são bons ouvintes sendo dotados de fortes traços de inveja e arrogância. Dados estes fatores, o narcisista não mantém boas relações interpessoais, e sentem a necessidade de sempre estarem no controle, podem até mesmo serem chamados maquiavélicos.

A neuroanatomia de um egocêntrico e de um narcisista também é diferenciada, apontam os resultados colhidos em minhas pesquisas. O volume de matéria cinzenta na região da ínsula anterior é reduzido, área essa associada a empatia. Também no córtex pré-frontal há interferências relacionadas à tomada de decisões, prevenção e lógica. Por fim, outras desconexões evidentes ocorrem na rede paralímbica frontal, interconexões estas que estão envolvidas nas funções de processamento de emoção, na definição de metas, na motivação e autocontrole.

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Com todas essas alterações o indivíduo tampouco sabe diferenciar a fama e o sucesso. O sucesso é consequência da competência explanada de um indivíduo conectado a questões reais, e a fama é uma necessidade sem parâmetros, mas que tem alta repercussão. O egocentrismo causa incoerência, já que a personalidade egocêntrica é uma característica de falta de percepção da realidade, causada por todas as alterações neuroanatômicas.

Mas tranquilizo e dou algumas dicas para evitar cair nas armadilhas do ego: procure meios e ferramentas de autoconhecimento, sejam essas consultas regulares com psicólogo, assessores de personalidade, sejam atividades de sua escolha, como meditação. Exercite a empatia, cultive suas relações, tanto as antigas como as proporcionadas pela fama, busque seus valores pessoais e seja resiliente com eles. Por fim, faça as pazes com a ideia de que a fama pode ser passageira, e uma vez encontrada a sua essência, não a perca, pois apenas com ela qualquer processo é duradouro.

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Fabiano de Abreu Rodrigues, colunista do Mega Curioso, é doutor e mestre em Ciências da Saúde nas áreas de Psicologia e Neurociências com o título reconhecido pela Universidade Nova de Lisboa; PhD em neurociência pela Logos University International/City University. É também mestre em Psicanálise pelo Instituto e Faculdade Gaio/Unesco; pós-graduado em Neuropsicologia pela Cognos em Portugal e em Neurociência, Neurociência Aplicada à Aprendizagem, Neurociência em Comportamento, Neurolinguística e Antropologia pela Faveni do Brasil. Conta com especializações avançadas em Nutrição Clínica pela TrainingHouse em Portugal, The Electrical Properties of the Neuron, Neurons and Networks, Neuroscience em Harvard (EUA). É bacharel em Neurociência e Psicologia pela Emil Brunner World University (EBWU) e licenciado em Biologia e História pela Faveni do Brasil; tecnólogo em Antropologia pela UniLogos (EUA); com especializações em Inteligência Artificial na IBM e Programação em Python na Universidade de São Paulo (USP); e MBA em Psicologia Positiva na Pontifícia Universidade Católica (PUC).

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