Como era a vida de um soldado americano na Guerra do Vietnã

O governo de Vietnã divulgou em 1995, após 20 anos do fim da Guerra do Vietnã, sua estimativa oficial de mortes durante o conflito: cerca de 2 milhões de civis em ambos os lados, mais de 1 milhão de combatentes norte-vietnamitas e vietcongues. Já para o governo dos Estados Unidos, o Arquivo de Dados de Extração de Conflitos do Vietnã dos Arquivos de Extração do Sistema de Análise de Acidentes de Defesa (DCAS) registrou 58.220 baixas de militares norte-americanos, enquanto os próprios estimaram que entre 200 mil a 250 mil soldados sul-vietnamitas morreram.

Isso tudo durante 20 anos infernais de conflito. A Guerra do Vietnã foi considerada uma das mais sangrentas e difíceis de serem travadas, e o reflexo disso é que centenas de soldados tiravam a própria vida para não serem recrutados para o conflito, bem como desertavam para a Coreia do Norte. A maioria daqueles que resistiram e, principalmente, sobreviveram, acabaram enlouquecendo com doenças psicológicas oriundas da guerra.

(Fonte: Horst Faas)(Fonte: Horst Faas)

Nem mesmo as duas grandes guerras mundiais se compararam com o que aconteceu no território literalmente selvagem do Vietnã. Em 18 de junho de 1965, o fotógrafo Horst Faas capturou a imagem do soldado Larry Wayne Chaffin com as palavras “Guerra é um inferno” escrita à mão em seu capacete, se transformando em uma das fotos mais emblemáticas que definiram o que foi o Vietnã da guerra para os soldados.

Essa foi a vida dos soldados americanos durante o conflito.                             

Desunião

Dos 26 anos na Segunda Guerra Mundial, o recrutamento de soldados para a Guerra do Vietnã caiu para 19 anos, e ninguém queria ir, portanto, o governo americano passou a fazer sorteios para determinar qual jovem homem seria enviado. Porém, nada imparcialmente, os afro-americanos foram mais convocados do que os brancos, representando mais de 16% de todos os recrutados e 23% das tropas de combate; apesar de serem apenas 11% da população civil em 1967, como apontou uma matéria do The New York Times.

(Fonte: National Archives/Reprodução)(Fonte: National Archives Catalog)

Em meio a um período de forte tensão racial nos EUA, com os negros lutando pelos seus direitos e sofrendo com a represália do extremo racismo, o Vietnã foi a primeira grande guerra em que os soldados negros foram integrados com os brancos, porém recebendo piores rações, punições e acomodações do que os brancos.

Então, em um conflito já desunido, quando o mundo recebeu a notícia de que Martin Luther King Jr. havia sido assassinado, muitos soldados brancos desfilaram ao redor da base Cam Ranh Bay em vestes da Ku Klux Klan, celebrando a notícia. E isso só piorou o cenário interno de convivência.

Exaustão

(Fonte: Quora/Reprodução)(Fonte: Everett Collection/Alamy Stock Photo)

Diferente das trincheiras de combate da Primeira Guerra Mundial, ou dos planos de batalha em bombardeiros e canhões da Segunda Guerra Mundial, os soldados do Vietnã precisaram caminhar exaustivamente por dias pela floresta cerrada do território sul do país, de modo a recuperá-lo dos comunistas.

Eles caminhavam por dias e semanas, patrulhando a terra para que guerrilheiros vietcongues ou membros do exército norte-vietnamita fossem abatidos. Eles não tomavam banho, nem comiam e dormiam direito, enquanto carregavam nas costas tudo o que tinham para sobreviver, de suplementos a munições. No processo, eles foram infectados por picadas de bichos venenosos, sofreram lesões pelo terreno difícil e foram atacados por animais.

A maior parte da guerra aconteceu na mente dos soldados, forçados a conviver com o medo de serem aniquilados em um território onde estavam totalmente expostos, e do qual não conheciam quase nada. 

Isso piorava quando associado ao fato de que a guerra chegou a possuir até 6 meses em que nada acontecia, e os soldados precisavam lidar com esse marasmo que só tornava o propósito ainda mais sem sentido em suas mentes, despertando o ódio até mesmo pela própria nação.

A selva mortal

(Fonte: Pinterest/Reprodução)(Fonte: Historic Fine Art America)

Não foram só os vietcongues e norte-vietnamitas que tentavam matar os soldados americanos, mas o território também. Milhares de soldados foram atacados por enxames de mosquitos que espalharam dengue pelos campos, bem como as mais de 30 diferentes espécies de cobras venenosas cujas picadas são fatais.

Tudo isso sobre uma terra que os afundava e os encharcava com a quantidade de chuva. Quando não estava chovendo, o ambiente era quente e úmido, então eles nunca estavam completamente secos, fosse de água ou suor.

Drogas: a única saída

(Fonte: HIstory/Reprodução)(Fonte: Bettmann/Getty Images)

A droga foi o caminho para atenuar o estresse, a fome, o medo e até causar um pouco de emoção durante aqueles períodos de completa inatividade por meses. O governo dos EUA prescreveu mais de 225 milhões de comprimidos para seus soldados, então não era preciso ir muito longe para conseguir alguma diversão.

As tropas receberam carregamentos imensos de Dexedrine, apelidado de “pílulas estimulantes”, uma anfetamina que tinha o dobro da força dos estimulantes que os militares haviam prescritos em guerras anteriores.

Nesse combo, entrou também os analgésicos e esteróides, para aumentar a resistência, força e agressividade durante as missões de longo alcance; e antipsicóticos, como Thorazine, que anestesiava os efeitos psicologicamente traumáticos do combate. 

O uso deliberado das drogas farmacêuticas foi o responsável por uma das maiores explosões de casos de transtorno de estresse pós-traumático entre os veteranos no pós-guerra da História.

Bettmann

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