Chica da Silva: a história da ‘escrava que virou rainha’

“A negra era obrigada a ser recebida como uma grande senhora da corte do Rei Luís”

A letra de “Xica da Silva”, música gravada por Jorge Ben Jor no clássico disco África Brasil, de 1976, resume bem o mito da “escrava que virou rainha”. A partir da paixão com o contratador João Fernandes, homem poderoso, Chica se livrou da escravidão para se tornar uma mulher importante na sociedade da época. 

Desde o século XVIII, a história despertou o fascínio de milhões de pessoas em todo o mundo. Também inspirou livros, filmes, novelas, músicas e pesquisas históricas. Porém, o que é mito e o que é verdade na história de Chica da Silva? 

Xica da Silva: a história do mito

Por cerca de um século, as lendas passaram de boca em boca em Minas Gerais, região onde tudo aconteceu. O primeiro registro escrito da existência de Chica da Silva é um livro sobre as “memórias de Diamantina”, escrito pelo advogado Joaquim Felício, em 1868.

Porém, esse registro era carregado dos preconceitos da época: Chica era descrita como uma mulher devassa e sem atrativos — além de ter vivido uma união consensual, fora dos padrões de casamento do século XIX. É claro que, enquanto isso, uma versão mais positiva da história de Chica da Silva continuava na tradição oral do povo. 

Essa versão entrou para a história no século XX, quando a poeta Cecília Meirelles escreveu: “Nem Santa Ifigênia, toda em festa acesa, brilha mais que a negra, na sua riqueza. Contemplai, branquinhas, na sua varanda, a Chica da Silva, a Chica-que-manda!”. 

Nas décadas seguintes, o sobrinho de Joaquim, João Felício, escreveu um novo livro sobre a “dona de Diamantina”. Nessa história, Chica era descrita como uma mulher sensual e liberada, que “aproveitou seus poderes” para ascender socialmente e “dar o troco” em que a subjugou.

Essa visão da história também serviu como base para o filme Xica da Silva, dirigido por Cacá Diegues, em 1976. No mesmo ano, foi lançada a música de Jorge Ben, que abre o post. A Xica com X, bela e empoderada, ainda seria assunto em todo o Brasil, na telenovela de 1997.  

Xica da Silva, na novela de 1997 (Imagem: Notícias da TV/UOL)Xica da Silva, na novela de 1997 (Imagem: Notícias da TV/UOL)

Chica da Silva: a história da mulher

Em resumo, a história de Chica da Silva (ou Xica) era escrita de acordo com a visão de mundo de quem a contava — antes com preconceito, depois com celebração. Porém, a realidade vai muito além disso… Nas últimas décadas, diversas historiadoras estão tentando separar o mito da verdade sobre a “escrava que virou rainha”.

A verdadeira Francisca da Silva de Oliveira nasceu no povoado de Milho Verde, que pertencia ao então Arraial do Tejuco — onde hoje é Diamantina, Minas Gerais. 

A região era importantíssima para a extração de pedras preciosas, no século XVII, mas não era “civilizada” para os padrões portugueses. A maioria das pessoas que moravam na região eram homens, incluindo muitos escravos. Então, relações entre homens brancos e mulheres negras eram relativamente comuns — Chica apenas se tornou a mais lendária entre suas pares. 

A própria Chica, aliás, era filha de uma escrava trazida da Guiné com um português branco. Mas, como sua mãe não era alforriada e a relação não era conhecida publicamente, a moça acabou escravizada. Sua data de nascimento é incerta, mas estima-se que seja entre 1731 e 1735. Chica pertenceu a Manoel Pires Sardinha, antes de ser vendida para o contratador, por volta dos 20 anos de idade, em 1753.

Xica e João Fernandes, na novela (Imagem: Observatório da TV/UOL)Xica e João Fernandes, na novela (Imagem: Observatório da TV/UOL)

Chica e João Fernandes: a história da família

Como dito, essas relações entre brancos e escravas eram comuns, na época. Os senhores costumavam dar alforria às suas amantes depois de alguns anos, mas Chica conquistou sua liberdade em poucos meses. Mas como?

O mito diz que ela seduziu o contratador João Fernandes, que ficou louco de paixão. Mas as historiadoras acreditam que não foi bem assim: João Fernandes teria comprado Chica da Silva já pensando em torná-la sua esposa. Os dois viveram juntos por 17 anos e tiveram 13 filhos.

Como contratador de diamantes, João era um homem muito rico — e isso deu condições para Chica “comprar” o respeito da sociedade. É aí que o mito e as fontes históricas divergem mais uma vez. Os filmes trazem a imagem de uma mulher cheia de caprichos, enquanto os registros indicam que Chica buscou se firmar como uma mãe religiosa e exemplar, seguindo o exemplo das senhoras brancas da época. 

Ela fez generosas doações para ordens religiosas, seus filhos receberam a melhor educação da época e ela não teve mais nenhum relacionamento depois que João Fernandes precisou voltar para Portugal, em 1770. Assim, Chica pode ser enterrada no cemitério de São Francisco de Assis, reservado para a “nata” da sociedade branca da época. 

Em resumo, Chica conseguiu notoriedade por construir uma relação sólida com seu marido e fazer aquilo que era esperado de uma dama da sociedade com maestria. Um exemplo, é claro, mas bastante diferente daquele retratado no cinema e na televisão. 

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