Campo de concentração: uma história muito anterior a Auschwitz

As atrocidades cometidas nos campos de concentração nazistas, em especial nos de Auschwitz, estão eternizadas na história. No entanto, bem antes daquelas cenas lamentáveis, a humanidade já havia experienciado projetos de detenção de grupos civis sem direito a julgamento.

São muitas as histórias de pessoas presas que sofreram violência, tortura e todos os tipos possíveis de abuso e acabaram morrendo por não suportar a brutalidade de viver em um campo de concentração — até porque o destino delas já estava traçado quando foram presas e levadas para esses locais.

Do Brasil Império, passando pela Rússia e por Cuba até chegar aos Estados Unidos, esse terrível método de detenção de civis e militares, infelizmente, já foi a “solução extrema” em períodos de guerra e até como contenção de fluxos migratórios.

As origens

(Fonte: Reprodução/Cultura Colectiva)(Fonte: Reprodução/Cultura Colectiva)

O primeiro registro de internação civil da história foi na década de 1830, mas o termo em inglês para campo de concentração foi utilizado pela primeira vez para se referir aos reconcentrados, campos criados por militares espanhóis para confinar revoltosos de Cuba durante a Guerra dos Dez Anos (1868-1878).

Posteriormente, os Estados Unidos foram responsáveis por replicar a proposta durante a Guerra Filipino-Americana (1899-1902). A partir de então, os campos de concentração tiveram seu uso expandido por diferentes nações ao longo do século XX.

Dois dos mais emblemáticos foram o Gulag, internamento conduzido por soviéticos entre 1918 e 1991, e os campos de concentração nazistas durante a Segunda Guerra Mundial. O período pós-guerra, no entanto, manteve o uso indiscriminado do sistema, em especial em países africanos como o Quênia, durante a Revolta dos Mau-Mau (1952-1960), e no Chile, durante a ditadura de Augusto Pinochet (1973-1990).

Usos modernos

(Fonte: Thomas Peter/Reuters)(Fonte: Thomas Peter/Reuters)

Por mais inimagináveis que possam ser, os horrores de um campo de concentração seguem acontecendo em pleno século XXI, ainda que rebatizados para desassociar a imagem das atrocidades remetidas ao termo.

Nos Estados Unidos, por exemplo, mais de 50 mil imigrantes estão presos em instalações ao longo de toda a fronteira sul do país. Ainda que as pessoas ali não estejam prestes a ser exterminadas nem sendo obrigadas a trabalhar, elas estão presas, submetidas a maus-tratos (como frio e falta de alimentação) e, no caso de crianças, separadas dos pais — principalmente durante o governo do ex-presidente Donald Trump (2017-2021).

Na China, documentos vazados em 2019 revelaram que mais de 1,8 milhão de uigures, muçulmanos que residem na região autônoma de Xinjiang, no noroeste do país, estavam detidos pelo governo chinês em instalações conhecidas como “centros de treinamento vocacional”. Pesquisadores apontam essa como a maior internação de uma minoria etnorreligiosa desde o Holocausto.

O Brasil também tem campos de concentração

(Fonte: Wikimedia Commons)(Fonte: Wikimedia Commons)

Durante a Grande Seca, no século XIX, uma grave crise humanitária se instalou no Nordeste, em especial no Ceará. Para confinar pessoas que fugiam das secas, o governo brasileiro criou sete campos de concentração, conhecidos como currais do governo. A ideia era impedir que os retirantes chegassem às grandes cidades e evitar uma nova crise social e econômica.

No período em que o Brasil participou da Segunda Guerra Mundial, o governo também montou campos de concentração para confinar alemães, italianos e japoneses. Foram criados 12 locais do gênero em São Paulo, no Paraná, no Rio Grande do Sul, em Santa Catarina, em Minas Gerais, no Rio de Janeiro, em Pernambuco e no Pará.

Na Granja do Canguiri, na grande Curitiba (PR), imigrantes japoneses foram separados dos filhos, exibidos como se estivessem em um zoológico humano e obrigados a trabalhar. Em Recife (PE), funcionários das Casas Pernambucanas foram levados a um campo de concentração porque os donos tinham origem germânica.

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