Bestiários: a enciclopédia medieval que misturava religião e ciência

O período medieval, compreendido entre os séculos V e XV na Europa, foi marcado pelo alto teor mitológico que envolvia dragões que destruíam cidades, serpentes aquáticas que engoliam navios e criaturas que tentavam arruinar a vida dos humanos, seduzindo-os para os levar para o Inferno. Esses eram as bestas, a horda de auxiliadores do Diabo que despencaram do Paraíso no início dos tempos após serem coibidos com justo juízo para um plano de danação eterna.

Para ensinar e também alertar as pessoas, assim surgiram os bestiários, compêndios que listavam as diversas criaturas e seus significados, cada qual seguida de uma ilustração acompanhada por uma lição de moral.

Por outro lado, o bestiário também incluía todos os tipos de animais, desde fantasiosos até os reais, como o leão, descrito como o “governante de todos os animais”. Naquela época, o livro foi a coisa mais próxima de uma enciclopédia natural, mas explicada através de uma visão cristã. Os animais foram interpretados como evidência de um plano divino de Deus para o mundo, pois ele teria colocado neles comportamentos e características no início de tudo para refletir as verdades bíblicas, visto que vieram antes dos seres humanos.

A referência divina

(Fonte: Pinterest/Reprodução)(Fonte: Pinterest/Reprodução)

Os filósofos naturais tentaram desconsiderar essas observações fantasiosas, amplamente interpretadas e consideradas verdadeiras, mas a popularidade dos bestiários e da fé eram maiores que qualquer conclusão científica.

Muito influentes na Inglaterra e na França do século XII, os bestiários tiveram origem em um texto grego do século II chamado Physiologus, que continha alguns animais descritos e um pequeno número de árvores e rochas. Tudo foi interpretado como reflexo de um aspecto da vida de Cristo ou de sua doutrina e, em algum momento do século XI, essas informações integraram o texto Etimologias, escrito por Isidoro de Sevilha, arcebispo de Sevilha.

(Fonte: Pinterest/Reprodução)(Fonte: Pinterest/Reprodução)

O texto era uma enciclopédia medieval de conhecimento mais popular que incluía quase 250 animais. Um deles, o unicórnio, era considerado uma fera selvagem que só podia ser capturada se uma virgem se sentasse sozinha na floresta e esperasse que ele se aproximasse e deitasse sua cabeça em seu colo. Então, um caçador poderia matá-lo.

A história era uma alegoria cristã para a encarnação de Jesus no ventre da Virgem Maria, e sua subsequente vulnerabilidade como humano nas mãos dos homens. Assim, o unicórnio era visto como uma contraparte do mundo natural para Cristo.

Os monstros e criaturas antinaturais encontraram seu lugar nos bestiários como uma forma de representar parte do plano divino e ensinar os homens sobre o perigo dos pecados, reunindo no mesmo lugar o pensamento religioso e científico, visando fazer deles uma só coisa.

(Fonte: Getty Center/Reprodução)(Fonte: Getty Center/Reprodução)

Em Esquecidos por Deus – Monstros no Mundo Europeu e Ibero-Americano, a historiadora Mary Del Priore ressalta que os bestiários eram a “ênfase na moralidade apregoada pela Igreja Católica”, dando um novo sentido alegórico aos monstros. A Igreja buscava conciliar a filosofia com a crença popular, adicionando um significado espiritual nas entidades mitológicas e ensinamentos sobre bons costumes.

Os bestiários perderam influência com a entrada do século XVII, principalmente com a potência do Iluminismo na Europa

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